A Festa de Iemanjá de Fortaleza é realizada há mais de meio século e foi tombada como patrimônio imaterial da cidade em 2018. Agora tem estudo dedicado, assinado pela geógrafa e professora Ilaina Damasceno.
O livro “Iemanjá em Mares Verdes” toma a festa como objeto de análise territorial. O recorte da geografia é útil aqui: ele trata a celebração como uso do espaço urbano e da orla, disputa por território e produção de paisagem — não apenas como manifestação de fé.
A escolha do objeto tem peso. O Ceará não é o primeiro estado que vem à mente quando se fala em religiões de matriz africana, e é exatamente por isso que o registro importa: documenta a presença afro-religiosa fora dos eixos habituais da Bahia e do Rio de Janeiro.
O tombamento de 2018 antecipou uma tendência que se confirmou no país. Em 2026, Florianópolis reconheceu por decreto a celebração do Campeche; Belo Horizonte já havia reconhecido as festas de Iemanjá e dos Pretos Velhos como patrimônio municipal.
O padrão é claro: as festas de Iemanjá viraram o instrumento mais eficiente de reconhecimento público das religiões afro-brasileiras, porque acontecem em espaço aberto, envolvem a cidade inteira e produzem imagem — três condições que facilitam o processo de patrimonialização.
“As festas de Iemanjá acontecem em espaço aberto, envolvem a cidade inteira e produzem imagem. É o que facilita o tombamento.”— Síntese da apuração — Chaos Society
O Nordeste afro-religioso além da Bahia
Documentar a presença no Ceará amplia o mapa e desfaz a ideia de que a matriz africana se concentra em dois ou três estados.
Para pesquisadores, o livro abre caminho metodológico: geografia aplicada a festa religiosa.