Em um apartamento escurecido de Moscou, Natalia Malinovskaya atende uma clientela que ela não tinha há alguns anos: homens que lutam no leste da Ucrânia. A Reuters documentou o fenômeno — e a reação legislativa que ele provocou.
Praticantes ouvidos pela agência relatam bases de clientes que dobraram ou triplicaram nos últimos anos, num cenário de dificuldade econômica, incerteza e tensão geopolítica. Os serviços são anunciados em redes sociais e aplicativos de mensagem: feitiços, limpeza energética, adivinhação.
As demandas são mundanas e reveladoras. Malinovskaya oferece de feitiços de amor a proteção contra o mal, e diz que a maioria procura por problemas amorosos — incluindo soldados preocupados com a fidelidade das parceiras. Outros buscam respostas sobre finanças e sobre o destino de familiares mobilizados.
O comércio acompanhou. O bar temático de vodu Marie Laveau, que oferece leituras de tarô, virou ponto do momento. A proprietária, Evgeniya Chassagnard, resumiu o acaso comercial com uma frase seca: descobriram que combinavam perfeitamente com o momento.
A resposta institucional foi rápida. Um grupo de parlamentares apresentou projeto para banir anúncios de serviços como astrologia e cura energética, alertando para a exploração financeira de pessoas vulneráveis. O patriarca Kirill, chefe da Igreja Ortodoxa Russa, apoiou a ideia e, em janeiro, condenou a “influência manipulativa de massa” de cartomantes e videntes.
“Descobrimos que combinávamos perfeitamente com o momento.”— Evgeniya Chassagnard, proprietária do bar Marie Laveau, à Reuters
Crise alimenta adivinhação — e regulação vem atrás
O padrão se repete historicamente: procura por adivinhação sobe em períodos de guerra e instabilidade econômica, e o Estado responde tentando restringir a oferta.
É o mesmo debate que aparece nos EUA sobre feitiços de carreira e no Brasil sobre publicidade de serviços espirituais.