Andrew Dickson White, primeiro reitor da Universidade Cornell, passou décadas comprando livros de demonologia. Não por devoção: ele queria documentar, com as próprias fontes, o que considerava o custo histórico da superstição institucionalizada. O resultado é hoje a maior coleção de bruxaria da América do Norte.
A Cornell Witchcraft Collection reúne mais de 3.000 itens que vão do século XV até o presente. O núcleo é formado por manuais de caça às bruxas, tratados de demonologia, transcrições manuscritas de julgamentos europeus e coleções de feitiços — material que, na época em que circulou, funcionava como literatura técnica de tribunal.
Entre as peças estão o primeiro livro sobre bruxaria já impresso e a primeira imagem impressa de bruxas em voo. A montagem, iniciada no século XIX, tinha propósito polêmico: White escrevia sobre o conflito entre teologia dogmática e ciência e usava o acervo como prova documental.
A exposição “The World Bewitch'd: Visions of Witchcraft from the Cornell Collections” organizou esse material em torno de estereótipos de gênero, crença no voo noturno, metamorfose, pactos demoníacos e a mecânica das epidemias de acusação. Boa parte do conteúdo permanece disponível na versão on-line mantida pela biblioteca.
A curiosidade que fica é de ordem prática: o acervo que hoje serve a pesquisadores de história da magia foi comprado por um cético militante querendo provar o oposto. A coleção sobreviveu ao argumento.
“Do século XV ao XX, o mesmo acervo serviu ao promotor, ao cético e ao estudioso de magia.”— Síntese da apuração — Chaos Society
O arquivo importa mais que a tese de quem o montou
Coleções assim são a razão de a história da bruxaria europeia ser reconstituível hoje com nomes, datas e processos — em vez de depender de folhetim.
Para quem pesquisa, o caminho é o acervo digitalizado da própria universidade, aberto e sem custo.