O Benim perdeu quase 29% da cobertura de manguezal entre 1995 e 2015. A resposta que vem dando resultado na última década não veio de fiscalização ambiental: veio do Vodun, religião nacional reconhecida no país desde 1996.
A organização Eco-Bénin trabalha com comunidades costeiras para transformar trechos de mangue em áreas sagradas. O procedimento é religioso e administrativo ao mesmo tempo: sacerdotes de Fá realizam a adivinhação tradicional antes de designar a área, e a proteção passa a ser associada ao Zangbéto, entidade do Vodun ligada à guarda e à vigilância noturna.
O resultado prático é de cerca de 500 hectares — aproximadamente 1.235 acres — de manguezal protegidos ao longo da última década. O mecanismo de cumprimento é o que diferencia a experiência: a transgressão não é multa, é consequência espiritual reconhecida pela própria comunidade que vive ali.
O ganho ambiental é grande. Manguezais armazenam até quatro vezes mais carbono que florestas terrestres, protegem a linha costeira contra erosão e sustentam a pesca e a biodiversidade local — três funções críticas para uma economia costeira.
O caso interessa diretamente ao Brasil. Ele demonstra, com números, que territórios religiosos tradicionais podem operar como unidades de conservação de fato — argumento que aparece nos processos brasileiros de tombamento de terreiros, onde a proteção do espaço sagrado inclui a vegetação e as fontes de água usadas nos rituais.
“A transgressão não é multa: é consequência espiritual reconhecida pela comunidade que vive ali.”— Síntese da apuração — Chaos Society
Religião tradicional como política ambiental
Onde o Estado não alcança, o sistema de crença local entrega adesão que nenhuma fiscalização compraria.
É o argumento mais forte disponível hoje para quem defende o tombamento de territórios religiosos tradicionais.