Katherine Harrison era viúva em Connecticut no século XVII. Herdou propriedade, tocava a fazenda, fabricava cerveja, criava abelhas e praticava astrologia. Foi condenada por bruxaria e banida. A reportagem que recupera o caso argumenta que a lista de atividades não é detalhe biográfico — é o motivo.
O caso voltou à circulação em texto publicado pelo Guardian em 26 de julho de 2026, assinado por Lucianne Tonti, autora do livro “Good Witch”. O argumento se apoia no trabalho da historiadora Carol F. Karlsen, que documentou um padrão nos processos da Nova Inglaterra colonial: mulheres com terra, dinheiro ou ocupação em área dominada por homens apareciam com frequência desproporcional entre as acusadas.
As profissões recorrentes na lista são reveladoras: curandeiras, cervejeiras, parteiras e produtoras de alimento. São exatamente os ofícios que davam a uma mulher renda autônoma, clientela própria e trânsito social fora da tutela de um marido ou pai.
A leitura não substitui as outras camadas do fenômeno — pânico religioso, conflitos de vizinhança, disputas de herança e crise agrícola pesam em qualquer processo. Mas ajuda a explicar por que o perfil da acusada se repete de vilarejo em vilarejo, em jurisdições que não se conheciam.
Vale a ressalva histórica: Elizabeth Johnson Jr., a última condenada nos processos de Salém ainda sem reparação, só foi formalmente inocentada em 2022, pelo então governador de Massachusetts, Charlie Baker. Foram 330 anos entre a sentença e a anulação.
“Curandeiras, cervejeiras, parteiras e produtoras de alimento — a lista de acusadas é uma lista de mulheres com renda própria.”— Síntese da apuração — Chaos Society
A caça às bruxas também foi disputa patrimonial
Ler os processos como conflito econômico não romantiza nem demoniza: apenas devolve às acusadas a condição de gente com bens, ofício e inimigos concretos.
Para quem estuda o tema, a bibliografia de Karlsen continua sendo o ponto de partida menos ideológico e mais documentado.